A Canção das Águas

Em  A canção das águas, aprendi tantas coisas extraordinárias e até então desconhecidas por mim sobre navegação, tipos diferentes de embarcações, movimento das velas, posição dos mastros, que me senti como um velho marujo do mar.

A autora Sarah Tolcser teve um tato incrível ao estruturar sua obra de maneira a tornar a leitura confortável aos olhos de leigos como eu, se apropriando da parte maçante dos detalhes técnicos sobre navegação e embarcações como parte preciosa e essencial da própria trama, transformando um dos personagens principais, o engomadinho aristocrata Markos, segundo filho do emparca, em um aprendiz que com o tempo descobre a mágica que envolve aqueles que vivem sobre as águas.

Ambientada em um mundo de piratas, contrabandistas e batalhas com direito a canhões e espadas, Tolcser nos apresenta Caroline Oresteia como protagonista, uma adolescente que vive com o pai na Cormorant e tem como objetivo continuar o trabalho que o pai faz com toda devoção, fugindo assim daquela imagem que rapidamente associamos quando se trata de histórias de alto-mar, o do jovem herói que salva a donzela das garras de um poderoso pirata.

Até aí tudo bem. Tolcser acertou em cheio ao escolher uma figura feminina como personagem central de sua história utilizando de sua voz para narrar todos os acontecimentos, já que isso a libertou das amarras e caminhos óbvios que esse tipo de universo carrega consigo, porém, ao fazer isso, ela acabou optando por prender a personagem ao famoso estereótipo de garota forte, destemida, e que trava uma luta constante contra a mãe que teima em querer transformá-la em uma personificação do que seria uma dama. Um típico personagem que está se tornando cada vez mais corriqueiro na literatura YA pelo mundo, e que muitos hoje classificam como um clichê contemporâneo.

Devo confessar que isso fez com que eu demorasse a pegar gosto pela leitura do livro, largando muitas vezes no meio do capítulo por ter a estranha sensação de já conhecer o final da história antes mesmo de começa-la. Meu entusiasmo só foi concretizado a partir do capítulo seis, quando o desenrolar da história me levou aos diferentes cenários e me fazendo esquecer os clichês todos eu me entregar à história completamente.

O cenário compõe grande parte da beleza da narrativa. Cada cidade apresentada, cada ponto de parada da Cormorant, é um mundo novo que se abre diante de nossos olhos, criando maravilhosas atmosferas que envolvem o leitor lentamente até se sentir submerso nos locais e seus detalhes únicos.

É nesse momento, quando nos vemos diante dos mistérios que envolvem os povos do rio que somos capturados a devorar as páginas com uma voracidade incontrolável. Se a princípio remei contra a maré para alcançar alguma coisa que me impressionasse, não demorou estava tomada pela velocidade dos quatro ventos em uma animação fervorosa.

Quanto à narrativa, a maneira como Caroline conta a história é leve, limpa sem muitos floreios, com um fluxo que não permiti em momento algum que o leitor se perca ao longo dela.

Recheado de sensações, emoções e pensamentos da protagonista, é fácil se conectar com a personagem nesse sentido, mesmo que ela seja um clichê ambulante. Diria até que é praticamente impossível não criar empatia por ela ou qualquer outro personagem que nos é apresentado através de suas palavras.


A Canção das Águas ♠ Sarah Tolcser ♣ Plataforma 21 ♥ Crédito de imagem: Alice Duarte

 

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