O Menino no Meio do Fogo

Quem nunca se sentiu um “estranho no ninho”, um “peixe fora d’água”, um excluído, uma presença física cuja principal e única função parece ser a de ornamentar o espaço e nada mais?

É assim que Nino Barden, protagonista de “O Menino no Meio do Fogo”, primeiro volume da série de fantasia intitulada “Crônicas de Cobre”, de Luísa Ortiz, nos é apresentado, como um garoto inseguro que por vezes tenta permanecer escondido em meio às sombras por sentir-se deslocado no circo onde vive com a família. Um típico adolescente cuja “normalidade” é exatamente o que o faz ser diferente de todos com quem ele convive diariamente, seres humanos dotados de particularidades exímias que fazem do circo um show de excentricidades extraordinárias apreciadas pelos moradores da cidade.

Com uma trama trabalhada em cima da escolha do protagonista em viver um futuro forçado por seus pais ou correr atrás dos próprios sonhos, “O Menino no Meio do Fogo”, levanta importantes questões existências quando Nino se vê diante da decisão mais importante de sua vida ao completar dezoito anos, fugir do circo e deixar para trás o legado de sua família, ou receber a chave de um destino previsível e, para uma alma inquieta como a dele, muito limitado.

Em uma entrevista ao site Gazeta da Cidade (2018), Luísa afirma que o livro traz uma estória de superação e autoconhecimento e isso pode muito bem ser visto em diferentes momentos e circunstâncias ao longo da leitura.

De partida, o conflito interno que o protagonista carrega consigo por não conseguir corresponder às expectativas dos familiares e integrantes do circo quanto às suas aptidões, ou melhor, a falta delas, e a maneira como ele se autoquestiona sobre a sua própria natureza, nos leva a mergulhar mais profundamente na psique adolescente de Nino, e criar uma genuína empatia com os medos que ele nutre e que, junto do melhor amigo, ele vence ao se atirar de cabeça em um mundo desconhecido, cruel e brutal.

Nesse novo mundo, Nino é obrigado a encarar todos os males que sua vida enclausurada na redoma de vidro que envolve o circo nunca lhe permitiu conhecer. Morte, preconceito, violência se tornaram os pilares de seu crescimento e amadurecimento na passagem de sua vida adolescente para a adulta.

Com uma linguagem simples, e ambientada na Segunda Guerra Mundial, a narrativa fluida quebra qualquer barreira que o leitor possa criar ao iniciar sua viagem pelas 230 páginas muito bem estruturadas, impedindo que o mesmo caia no rótulo de se tratar de “apenas mais um livro YA/fantasia”, trazendo familiaridade nas atitudes de cada personagem e seus sentimentos.

Interessante destacar também que, ao longo da obra, Nino não foi o único personagem a crescer e amadurecer. Cada personagem que nos é apresentado, além de trazer consigo sua própria história de superação e medos, traz uma garra e determinação própria que não passa despercebido em momento algum e que nos faz mergulhar de cabeça em suas vidas e na forma particular como cada uma delas se cruzam ao longo dos capítulos.

Isso, aliado a ambientalização minuciosa da trajetória de cada personagem, nos faz perceber o quão rica a obra é, tornando-a atemporal e única.

Talvez por isso, “O Menino no Meio do Fogo” tenha se tornado uma obra tão graciosa de ser apreciada, mesmo tratando-se de uma trama que se passa em um dos momentos mais turbulentas de nossa história.

 

 


 

O Menino no Meio do Fogo ♠ Luísa Ortiz ♣ Editora Buriti ♥ Crédito de imagem: Pia Prattes

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