Dois Cigarros

Certa vez, pelas andanças da vida literária, me deparo com a seguinte frase: “Este é definitivamente um romance agridoce”. Mergulhada em total curiosidade, corri para os sites de buscas na vã tentativa de entender o que seria um romance agridoce e eis que encontro essa definição: “Em sentido figurado, agridoce pode significar uma coisa que é agradável e desagradável ao mesmo tempo, algo que é uma mistura de prazer e amargura.”¹

Entendido a definição voltei a me perguntar, como diabos algum romance poderia ter uma dualidade tão forte a ponte de ser agradável e desagradável? Pra mim, ou era um ou outro e ponto final. Sem mistérios. Comecei então, a segunda jornada: procurar na literatura um exemplo vivo dessa definição. E, quando pensei em desistir, eis que me deparo com Dois Cigarros de Flavio Gomes.

Logo no primeiro capítulo comecei a ter aquela sensação maravilhosa de eureca e minha vida passou a ter mais sentido, afinal agora eu sabia concretamente o que era um romance agridoce.

Sim. Muitos torcerão o nariz, outros tantos virarão os olhos, mas todos, em algum momento da narrativa, irão concordar que o romance entre o arquiteto quarentão e a moça de grandes olhos verdes (eles não possuem identidades, mas isso também pouco importa) é sim uma dualidade completa.

Uma dualidade que está explicita na forma como o quarentão encara a própria experiência junto da moça que está ali pronta a retirá-lo de seu estado total de inércia. Esse sim, traz a dualidade incrustada ao longo da história, interior e exteriormente, lidando de forma contínua com o ódio que sente pela garota e seu abandono não justificável (várias vezes, diga-se de passagem), e o sentimento crescente e intenso que vive quando está em sua presença.

Dois Cigarros possui todos os elementos deliciosos que qualquer romance deve ter, amor, intimidade, lugares paradisíacos e românticos (passando pelo interior de Minas Gerais, Paris, Alemanha…), e uma doçura que faz o leitor rir, sonhar, desejar. Mas, antes que essa descrição afaste aqueles que não gostam de romances, é aí que entra aquele papo de agridoce lá do início.

Dois Cigarros não é um simples romance, é uma reflexão. É um conter de paradoxos e pensamentos que se mesclam à vida daqueles que leem suas páginas levando-os a se identificar com o personagem principal por, simplesmente, ele ser do tipo normal. O tipo que poderia facilmente ser seu vizinho, o conhecido da banca de jornal, o colega do escritório. Em outras palavras, o quarentão solitário – pasmem – existe.

Agora, se você quer mais um motivo para apreciar essa obra de arte impressa em papel branco, te apresento a estrutura única e pessoal de Flavio Gomes. Sem diálogos formatados e com uma linha do tempo descontínua, ora somos levados a conhecer seu passado, ora estamos apreciando o presente, o livro apresenta a história sobre o ponto de vista do arquiteto, narrando os acontecimentos para ninguém menos que a moça de grandes olhos verdes.

Seus sentimentos, suas frustrações, seus desgostos e gostos, todos são expostos à ela sem papas na língua nem delicadezas nas palavras. É o momento em que o homem passa a se despir de todos os pudores e se mostra cru para aquela que transformou uma vida amarga em uma recordação adocicada. Agridoce.

¹ Conceito visto no site Significados 

 


 

Dois Cigarros ♠ Flavio Gomes ♣ Editora Gulliver ♥ Crédito de imagem: Pia Prattes

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Um comentário em “Dois Cigarros

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