Soraya Abuchaim|The Dark Queen

Em entrevista ao Crônicas, a escritora, que já conquistou milhares de fãs, fala um pouco sobre suas obras e a força de seus personagens, ao retratar a violência real e cotidiana tão ou pouco conhecida pelos leitores.

Com temas envolvendo principalmente a violência contra a mulher, Soraya Abuchaim nos emociona ao lembrar o quanto é difícil para uma vítima de abuso reconhecer tal violência e conseguir suplantar o próprio medo e lutar para sair do “ciclo tão maldito” ao qual está presa.

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Crônicas em Série: Você começou escrevendo contos para sua página pessoal Meu Meio Devaneio, certo? Foi nessa época que você teve a ideia de escrever e publicar seu primeiro livro Até eu te possuir, ou ela surgiu no decorrer da sua firmação como escritora?

Soraya Abuchaim: Na verdade, eu só comecei a pensar em escrever um livro depois que minha filha nasceu. Antes, eu achava muita pretensão me aventurar pelo mundo da literatura. Até eu te possuir surgiu de uma ideia para um conto, mas conforme fui desenvolvendo, ficou grande demais (risos) e ao mesmo tempo, comecei a escrever um livro em parceria com outra autora, então tive mais know-how para estruturar a história e transformá-la.

CS: Você sempre teve a certeza de que gostaria de escrever obras que apresentassem o terror psicológico como um dos focos principais? Ou em algum momento você cogitou a ideia de escrever outros gêneros?

SA: Sempre respirei terror psicológico, suspense e afins. Foi minha escolha literária desde adolescente, então, sinceramente, não me ocorreu escrever nada que não seguisse essa linha. Hoje, eu cogito novas experiências, mas ainda são apenas planos.

CS: Tanto nos contos, quanto no livro Até eu te possuir, a personagem que é abusada normalmente é uma mulher, e o abusador alguém de sua confiança. Hoje a taxa de feminicidios no Brasil, segundo dados da ONU, é a quinta maior do mundo. Esse tipo de estrutura característica em suas obras seria uma opção sua como uma consequência desse tipo de violência que está muito enraizada na cultura brasileira atualmente, ou apenas uma escolha de caracterização típica que encontramos facilmente nas histórias de suspense e terror pelo sexo feminino ser mais frágil frente a um confronto?

SA: A escolha por abordar esse tema veio das pesquisas diversas que fiz em relação ao tema, e de como ele está em voga na sociedade atual, infelizmente. Até eu te possuir, apesar de mostrar esse lado do psicológico abalado de uma mulher, trata não apenas disso, mas de como é um relacionamento abusivo pelo olhar de quem vive aquilo. Porque julgar de fora é fácil, difícil é viver em um ciclo tão maldito sem se dar conta ou sem conseguir sair dele.

CS: É muito comum os leitores romantizarem uma relação abusiva, principalmente quando o abusador se mostra um príncipe encantado. Em Até eu te possuir, Johanna sofre abusos desde a adolescência e seu último abusador se mostrou exatamente assim, um príncipe pronto a resgatá-la de todo seu passado. Com o decorrer da história ela percebe quem ele realmente é, e acaba lutando contra ele. Você concorda quando afirmo que essa reação de Johanna de reconhecer que está em um relacionamento abusivo e de se libertar dele, lutando pela própria vida, a torna uma heroína da atualidade?

SA: Essa foi exatamente a visão que eu queria que o leitor tivesse: da Johanna como heroína, como uma mulher que, mesmo sofrendo por décadas, consegue retomar as rédeas da própria vida quando age em um momento de profunda coragem. Quantas agiriam assim? Ouso dizer que não muitas… o medo sempre fala mais alto.

CS: Como você se vê, como mulher e escritora, frente ao tipo de violência que você aborda em suas obras?

SA: A violência que eu descrevo é sempre embasada na realidade (inclusive, foi um exercício para mim no livro que lançarei esse ano, Pelo Sangue que nos Une, sair um pouco da realidade crível para explorar outros lados dos seres humanos). Estudo muito a psicopatia e tento colocar em minhas obras reflexos do que vemos diariamente. A literatura pode (e deve) ser usada para expurgar os sentimentos ruins que temos em algumas situações. O leitor que passou por aquilo e simpatiza com a personagem, muitas vezes exorciza de si a maldade que já sofreu. Se o leitor nunca passou por determinada situação, o conhecimento do ser humano aumenta e o torna mais apto a perceber o mal a seu redor. 

CS: Um dos pontos que se destacam em suas obras é a utilização das cidades brasileiras como cenário para os acontecimentos que se seguem. Atualmente, muitos escritores nacionais optam por utilizar lugares do exterior ou mesmo inventar um novo. Você acredita que, de certa forma, essa opção por utilizar lugares que os leitores possam se identificar mais facilmente ajuda na imersão dele dentro da história?

SA: Eu acredito que sim. É bem mais confortável para o leitor saber que aquele lugar existe, de fato. Em A Vila dos Pecados, optei por criar uma vila  fictícia porque misturei algumas influências europeias e portuguesas na ambientação, criando um local que fosse crível, embora diferente de tudo. De qualquer forma, não acho que escrever no Brasil ou no exterior seja mandatório para o sucesso de uma história. O importante é que o autor conheça do que está escrevendo, seja por pesquisas ou por ter convivido no local.

CS: Em uma entrevista você comentou que faz uma espécie de laboratório antes de escrever suas obras, fazendo assim com que a história se torne mais próxima a realidade. Esse laboratório também se estende à escolha do local e cenários onde se passará suas histórias?

SA: Não necessariamente, embora eu goste bastante de usar São Paulo como pano de fundo e conheça a cidade relativamente. Os meus laboratórios giram mais em torno de pesquisas psicológicas ou detalhes históricos específicos.

CS: Seu conto Cotidiano traz um final um pouco desesperador para curiosos de plantão como eu. Me lembrou muito o conto Casa Tomada do argentino Julio Cortázar onde o leitor passa o conto inteiro angustiado para saber quem afinal teria tomado a casa, porém isso nunca é revelado. Essa proposta de manter a identidade secreta do agressor em Cotidiano surgiu como um recurso a mais dentro do conto como uma forma de mexer com o imaginário dos leitores, ou você realmente não sabe quem agrediu Karen?

SA: O agressor da Karen aparece como qualquer pessoa com má intenção que queira prejudicar outrem. Como o foco do conto não era ele e sim, ela e seu desejo impensado, optei por não mencionar nada sobre ele. Isso é inusitado, porque a maioria das histórias parece que precisam ter um final fechado, mas gosto de usar essa característica de deixar o leitor curioso e usando a imaginação. Quis transformar esse agressor em um estereótipo do psicopata.

CS: Eu sou muito fã Stephen King, li várias de suas obras, e devo dizer que, mesmo você declarando que ele é seu mestre, em momento algum eu consigo lê-lo em suas obras. O que é maravilhoso, pois o seu trabalho apresenta uma assinatura própria, e isso é muito difícil quando o escritor possui uma forte inspiração quanto King parece ser para você. Como as obras dele influenciaram a sua maneira de escrever, de pensar? Existe algum outro escritor que tenha te influenciado diretamente, tanto quanto ele?

SA: Fico muito feliz com sua percepção, porque o que menos gostaria é ser igual a alguém (risos). Claro que quando nos comparam com algum autor famoso, ficamos honrados, mas saber que conquistei um estilo próprio é uma vitória. Eu me inspiro no King tanto em sua narrativa, que encaro como perfeita, quanto na sua imaginação, que me faz ver além do que os olhos enxergam. Muitos outros autores me inspiram, mas costumo dizer que a minha escrita é uma mescla de tudo o que eu já li e assisti na vida e que, de alguma forma, me tocou de maneira positiva.

CS: Se hoje, você pudesse sentar frente a frente com esse ícone do terror que é Stephen King, o que você falaria?

SA: King, obrigada por ter me ajudado a sobreviver à adolescência, por ter me ensinado muito do que sei hoje sobre escrita e por todas as horas de puro deleite que vivi ao degustar seus livros.

CS: Você lançou recentemente o livro A vila dos pecados. O que podemos esperar dele?

SA: A Vila dos Pecados é um livro de terror mais subliminar, e pode ser considerado suspense também. Ele traz a história de uma vila bastante peculiar no final do século XIX e que guarda terríveis segredos. É uma luta entre bem e mal, mas de forma menos explícita. E esse ano (2018) lançarei meu terceiro livro, chamado Pelo Sangue que nos Une.


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Entrevista realizada em 10 de fevereiro de 2018 ♣ Crédito de imagem: Arquivo Pessoal Soraya Abuchaim ♦ Responsável pela entrevista: Pia Prattes

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