Até eu te Possuir

Ambientado em três décadas diferentes, o livro agracia o leitor com um jogo criativo de capítulos intercalando-os conforme a história avança. Para alguns leitores esse tipo de abordagem cronológica pode causar certa irritação ou mesmo desistência em dar continuidade à leitura, porém, em minha opinião, a aposta nesse jogo feito por Soraya Abuchaim, juntamente com a mudança de voz demarcando cada década – ora em primeira pessoa, ora em terceira pessoa – é exatamente o que torna a obra fascinante e rica.

Nela, o leitor que se aventurar por suas páginas muito bem escritas, será preenchido por uma gigantesca expectativa do que está por vir na vida de sua protagonista Johanna e dos acontecimentos que envolveram as tragédias pessoais de número 1 e 2 – como ela própria intitula determinados acontecimentos – e que a transformaram de uma menina cheia de energia, linda e popular em uma mulher solitária, temerosa, e de baixa estima, tornando praticamente impossível deixar a obra de lado enquanto a curiosidade felina não é saciada.

Todos esses acontecimentos permanecem com seus nós livres ao longo da obra sendo amarrados apenas no último capítulo onde a perspicácia e a maldade, presente e ressaltada desde as primeiras linhas, é apresentada em um nível mais sádico, levando o leitor a se perguntar até onde o ser humano é capaz de chegar para realizar seus desejos mais obscuros.

“A psicopatia, a obsessão- compulsiva, a pedofilia e a neurose histérica (também conhecida como Obsessão Amorosa) são abordados de forma tênue e mascarada, se fazendo presente no papel daqueles em quem Johanna mais confia e admira.”

Ao andar da carruagem, isso se torna o estopim para a maldição que ela acredita rondar sua vida desde seus treze anos de idade, exatamente como é visto acontecer na vida de milhares de mulheres que, assim como ela, sofreram ou ainda sofrem abusos por parte de parceiros e familiares na vida real.

O primeiro abuso sofrido por Johanna, que, infelizmente, é uma realidade pulsante dentro de muitas casas brasileiras e silenciada por aqueles que deveriam proteger as vítimas e não o fazem, foi o mais dramático momento que ela vivenciou ao longo de sua história, não querendo diminuir aqui o peso dos demais abusos que ela viria a sofrer na fase adulta. O fato da pessoa que ela mais admira e possui um carinho gigantesco e um amor incondicional, ser aquela que destrói sua inocência infantil torna o acontecimento em si em algo abominável e nojento. Johanna passa a não confiar nas pessoas, se recolhe em um mundo particular e inacessível e teme ser vista, com medo latente de passar por tudo outra vez, exatamente como reage as vitimas desse tipo de abuso.

Aqui Soraya, teve um cuidado implícito em abordar esse tema, tendo um tato incrível com as palavras e a maneira com que expressou os atos que levaram ao abuso e as emoções dos personagens envolvidos na trama e década correspondente, transmitindo exatamente o que se passa dentro da cabeça da vítima quando ela possui o elo de confiança tão forte e natural interrompido por uma vontade doentia de um violentador.

O último abuso sofrido por ela, e que se arrastou por anos até que ela conseguisse finalmente se livrar das garras do lobo vestido de cordeiro, vem da pessoa que ela acreditava estar salvando-a de uma vida de reclusão e solidão ao qual ela se embrenhou após tanto sofrimento. Conquistada por Michel e acreditando finalmente encontrar a felicidade a muito negada à ela, Johanna acaba aceitando sofrer as consequências de um relacionamento violento, abusivo e obsessivo, tendo, por diversas vezes, encontrado desculpas para continuar junto dele mesmo após sofrer violência física, reclusão forçada e violência psicológica.

“Essas desculpas são apresentadas ao leitor através dos pensamentos da própria protagonista quando os abusos começam a se tornar mais graves com o passar do tempo, fazendo-a entrar em uma luta interior intensa onde, apesar de saber ser errado o que ele faz, ela ainda consegue encontrar lógica na forma doentia com que ele a trata.”

A forma como Johanna vê e reage ao relacionamento nos coloca de frente com uma questão muito delicada que envolve mulheres de diferentes classes sociais, etnias e religiões, que é a forma como a vítima vê no abusador a salvação e não a sua destruição.

Difícil acreditar que alguém realmente possa aceitar sofrer o que a protagonista e tantas mulheres reais sofrem nos dias de hoje, principalmente quando não se está na pele delas, porém Soraya nos mostra como, muitas vezes, o abusador se utiliza das fraquezas de sua vítima para conseguir continuar no relacionamento invertendo os papéis de tal maneira que a vitima passa a se martirizar por achar que está sofrendo algum tipo de abuso por parte daquele que demonstra tanto amor por ela, principalmente quando este pede perdão por seus atos. Assim, abusador e vitima entram em um ciclo vicioso e destrutivo que muitas vezes levam ao óbito.

Parabéns à autora por trazer a tona dois temas que hoje ainda são tratados como tabus, e mostrar o lado da vitima, sua visão, seus medos, seus pensamentos, seus dilemas.

 


Até eu te Possuir ♠ Soraya Abuchaim ♣ Editora Ella ♥ Crédito de imagem: Jessica Rabelo 

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