A Menina que não sabia Ler

Esse é definitivamente um livro controverso que traz uma capa doce e encantadora nos remetendo aos romances de Jane Austen, mas que abriga um conteúdo perturbador em diferentes níveis que a psique humana é capaz de alcançar [Freud com certeza se deliciaria tentando decifrar Florence].

Apesar de apresentar uma leitura que cativa eu tive um pouco de dificuldade para engrenar nela pois achei sua introdução um pouco extensa e massante. Por isso, foi somente a partir do terceiro capitulo, mais ou menos, que consegui me prender nos acontecimentos e passei a ter um interesse maior sobre a personagem principal e a vida daqueles que a rodeavam. Principalmente quando ela se apresentou ser o oposto do que eu esperava encontrar quando adquiri o livro. A capa original americana faz toda a diferença nesse quesito, pois de cara você já percebe a aura psicótica e sobrenatural que envolve cada página dele.

Florence apresenta ser uma menina diferente de todas as outras de sua época desde os primeiros instantes. Narradora da própria história, ela transmite seus pensamentos e alguns devaneios que fazem parte de seu mundo infantil e fantasioso dando ênfase a todos os acontecimentos que ela considera relevante compartilhar com o leitor.

“Ela mostra-se. desde o principio, ser uma garota forte e destemida, capaz de fazer qualquer coisa para proteger seu irmão Giles, a única pessoa com quem ela parece realmente se importar.”

Impedida de ler por seu tio, que considera inapropriado uma mulher possuir algum conhecimento que vá além do bordado e afazeres domésticos, lembrando que a história se passa no século XIX, ela acaba aprendendo por conta própria a ler, acompanhando os criados quando esses o fazem, decifrando sozinha o incrível código da escrita. De palavra em palavra ela se descobre inteiramente fascinada pelo mundo da literatura e todas a possibilidade que pode lhe proporcionar, lhe permitindo explorar novos e maravilhosos mundos sem precisar sair de trás das enormes paredes de pedra que envolvem Blithe.

Não demora e Florence precisa enfrentar seu pior pesadelo com a chegada de uma substituta para sua antiga preceptora, morta afogada de forma misteriosa enquanto navegava pelo rio que envolve a propriedade, e é nesse ponto que a história se torna extremamente interessante.

“Para a menina, a nova preceptora é na verdade um fantasma, uma bruxa que consegue observar cada passo seu através dos espelhos espalhados pela mansão e que quer desesperadamente devorar Giles.”

Com o andamento da história, o autor consegue nos convencer que realmente algo sobrenatural está ocorrendo dentro da mansão, principalmente por todos os fatos narrados por Florence serem tão ricos e cheios de detalhes que convencem o mais cético de todos. Porém em determinados momentos, nos pegamos pensando se realmente o sobrenatural está presente ou se é simplesmente a imaginação de Florence pregando-lhe uma peça extremamente engenhosa.

Eu diria que o ponto alto do livro é justamente esse, a dúvida que envolve a história como um todo sobre o que é real e o que foi inventado por Florence ao narrar sua história. Será que a menina realmente está vivenciando algo sobrenatural ou é somente a imaginação fértil de uma mente obscura que foi nutrida pela biblioteca gigantesca e empoeirada da mansão ao longo de intermináveis meses que está falando por ela? A resposta a essa questão só é revelado apenas nas últimas páginas e de tal maneira que o folego é perdido no meio do caminho e os olhos precisam focar diversas vezes para crer no que as linhas oferecem.

Apesar de ter lido que seu final era decepcionante, eu o considerei brilhante e com certeza perturbador, me lembrando filmes como O Anjo Malvado de Ian McEwan, onde a psicopatia se torna um traço forte e evidente na história mascarada pela inocência infantil.


A menina que não sabia ler ♠ John Harding ♣ Editora Leya ♥ Crédito de imagem: BooksCover

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