Coraline: Realidade Alternativa

Coraline é um daqueles livros feitos para crianças mas que todo adulto ama, principalmente pela aura sombria que a envolve. Sua escrita leve, gostosa e simples facilita a ingressão do leitor ao universo paralelo que surge para a protagonista sem muitas delongas, e esse foi um dos pontos que me fisgou durante a leitura conforme avançava a história.

Com personagens de traços fortes, a realidade alternativa apresentada por Neil Gaiman traz a questão principal da procura incensante pela perfeição do ser humano, o que nos faz refletir até que ponto estaríamos dispostos a ir para alcançá-la. A perfeição que Coraline busca para seu mundo solitário é exatamente o que a leva a se perder em um mundo aterrorizante.

No princípio tudo parece maravilhoso e do jeito que ela sonhou, e todos a sua volta se tornam objetos de seu fascínio e admiração por serem exatamente como imaginava que deveriam ser – sua mãe faz todas as comidas e doces que ela ama, seu pai está sempre presente e dando-lhe atenção e sorrisos, e seus vizinhos não erram seu nome (uma das coisas da qual Coraline se queixa desde as primeiras linhas), além de ter novos e curiosos amigos (seu gato passa a ser mais interessante à ela quando começa a falar) – porém esse fascínio todo começa a ir por água abaixo no momento em que ela descobre que esse novo mundo não é tão maravilhoso assim, tornando o seu sonho em um pesadelo interminável e do qual necessitará lutar muito para conseguir acordar.

Um aspecto que merece destaque, é a caracterização dos personagens residentes no universo paralelo de Coraline.

Apesar desse universo ser igual ao que a protagonista vive e os personagens serem fisicamente idênticos entre si, uma pequena coisa os diferencia, aqueles que vivem na realidade alternativa atrás da porta secreta possuem botões costurados no lugar dos olhos. Alguns podem afirmar que isso se deve ao ambiente macabro criado por Neil Gaiman ser também manifestado em seus moradores, mas isso, em minha opinião, vai muito além de uma mera caracterização.

Se pararmos para analisar o significado que os olhos transmitem através dos tempos nas sociedades de modo poético, perceberemos que a troca deles por botões pode acarretar em muitas hipóteses ao leitor. A minha teoria cruza os oceanos e ancora em um ditado muito antigo e que provavelmente você já ouviu em algum momento de sua vida – “os olhos são a porta para a alma” – e utilizando essa concepção, eu criei uma resposta interessante para a utilização dos botões.

Se os olhos são a porta para a alma, como o velho ditado afirma, então é através deles que conseguimos enxergar a verdadeira personalidade de alguém.

Muitos podem ser os tipo de olhares que uma pessoa apresenta para indicar o estado de espirito que se encontra em relação à determinada pessoa ou situação, olhar de ternura, de encanto, de ódio, olhar frio, enfim, indiferente das intenções que a pessoa possa ter, ela com certeza poderá ser percebida em seu olhar. E, na minha singela e particular opinião, os botões seriam uma caracterização desse pensamento. Se os olhos são capazes de demonstrar intenções verdadeiras e, no caso da realidade alternativa de Coraline, a perfeição de atos, sentimentos e diálogos, nada mais óbvio que trocar a única coisa que poderia revelar as verdadeiras intenções dos moradores dessa realidade por objetos inanimados. Louco não? Mas eu nunca disse que minha teoria era simples e aceitável. Enfim…

Para finalizar só me resta declarar aqui que a meticulosidade com que Neil Gaiman detalha seu enredo é maravilhoso e não foi necessário linhas e linhas descritivas e incansáveis para fazer com que o terror, o medo e a ansiedade habitasse meu peito ao ler essa fantástica história. Em miúdos, um trabalho como esse merece sim ser lido por todos, e relido muitas vezes mais.

E para você? Qual a teoria dos olhos de botões?


Coraline ♠ Neil Gaiman ♣ Editora Rocco ♥ Crédito de imagem: Maria Simone

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